O humor como resistência: tese analisa HQs políticas e a crítica social em tempos de crise

Pesquisa de doutorado defendida na Universidade Metodista de São Paulo revela como o humor, presente em histórias em quadrinhos políticas, se tornou ferramenta de crítica e resistência durante os anos de instabilidade política entre 2019 e 2023.

Durante um dos períodos mais turbulentos da história recente do país marcado por crises política, social e sanitária entre 2019 e 2023 o humor emergiu como uma poderosa forma de crítica e resistência. Foi nesse cenário que a doutora Tássia Aguiar de Souza dedicou sua tese “Humor nos tempos de cólera: uma proposta conceitual de histórias em quadrinhos políticas”, defendida na Universidade Metodista de São Paulo, a investigar o papel das histórias em quadrinhos (HQs) como instrumentos de reflexão sobre o Brasil contemporâneo.

A pesquisa nasceu de uma inquietação surgida dentro do ambiente acadêmico. “Esse questionamento surgiu durante as discussões no Grupo de Pesquisa Comunicação, Enunciado e Narrativas, CENA, liderado pelo Prof. Dr. Mateus Yuri Passos, no PósCom da Universidade Metodista de São Paulo, e em sua disciplina Linguagem e Práticas Discursivas. O interesse nesse objeto de estudo sempre impulsionou calorosas discussões na disciplina e no GP, dado o alinhamento do prof. Mateus e de seus alunos com o tema”, explicou Tássia Aguiar de Souza.

A doutora acrescenta que a motivação também veio de pesquisas anteriores. “Além disso, a pesquisa sobre humor e política que já trazíamos do mestrado em Comunicação Social, também no PósCom, ganhou terreno nas discussões férteis sobre política propostas pelo Prof. Dr. Ivan Paganotti no GP Checar (Checagem, Educação, Comunicação, Algoritmos e Regulação), também na Metodista”.

Dessa combinação de experiências, nasceu o trabalho que propõe um novo olhar sobre os quadrinhos políticos. “Desta feliz confluência de interesses e experiências, nasce esta tese, que trata de uma proposição conceitual de histórias em quadrinhos políticas em mídia exclusiva”, afirmou a pesquisadora.

A autora parte da hipótese de que “as HQs políticas são um gênero discursivo que possui um conteúdo temático estável, política em seu sentido amplo; uma construção composicional própria, que pode variar de acordo com seus subgêneros, como a charge; e predominante tendência ao estilo humorístico”.

Para sustentar a hipótese, Tássia realizou um extenso levantamento de publicações entre 2019 e 2023 no site Guia dos Quadrinhos. “Em seguida, realizamos um levantamento sobre todos os títulos de HQs publicadas no Brasil de temática política, no site Guia dos Quadrinhos, entre os anos de 2019 e 2023”, contou. Ao todo, foram encontrados 255 títulos, dos quais 19 HQs inéditas se encaixaram nos critérios da pesquisa. “A partir da fase anterior, analisamos o perfil estético das publicações para caracterizar o estilo de cada uma conforme estabelece Bakhtin sobre os gêneros discursivos e suas particularidades estilísticas”, destacou a autora.

A pesquisadora observou que “essas produções costumam dar voz aos movimentos de resistência a regimes autoritários e denunciam, em tempos de crise política e social, as diversas formas de desvirtuação aos princípios democráticos e aos valores relacionados aos direitos humanos”. Segundo ela, “foi assim com as charges e tiras durante a ditadura militar no Brasil, foi assim com os memes no golpe de 2016, e vimos os novos e tradicionais modelos protagonizarem também o debate público entre os anos de 2019 e 2022, com o agravamento da crise política e social advindo da crise sanitária causada pela pandemia da covid-19. “

Para compreender como o humor atua como linguagem política, Tássia utilizou o diagrama estético de Étienne Souriau (1933), identificando a predominância de categorias como a sátira e o grotesco. “Utilizamos este método para investigar o perfil humorístico das publicações e os resultados indicaram que há uma tendência dos autores à sátira, especialmente, em função das charges. Também aparecem com bastante frequência as categorias cômica e grotesca, que rebaixam a figura do personagem a um sujeito de moral degenerada, monstruosa ou ridiculamente ingênua”, explicou.

Os resultados também mostraram que as HQs políticas carregam uma dimensão ideológica fundamental. “Para que se caracterize uma HQ política é indispensável a expressão ideológica explícita ou implícita no conteúdo da publicação”, afirmou a doutora. Ela ressalta que “HQs educativas, por mais que tratem de assuntos políticos, não pertencem a esse gênero, em função de seu posicionamento ‘neutro’ na forma de narrar. Este é um critério que consideramos fundamental para diferenciar HQs políticas e HQs sobre política”.

Nas considerações finais, Tássia retoma o propósito central da pesquisa. “Esse trabalho teve como objetivo definir um conceito de história em quadrinhos política em mídia exclusiva, seja ela uma HQ, uma graphic novel, ou um mangá”, afirmou. Para ela, o estudo confirma sua hipótese inicial. “Nossa hipótese de que as HQs em quadrinhos seriam um gênero discursivo com conteúdo temático, construção composicional e estilos próprios e estáveis se confirmou, apesar de nos direcionar para um outro olhar sobre as abordagens humorísticas de praxe”.

A autora conclui ressaltando a importância de ampliar o olhar sobre os quadrinhos como linguagem política. “Com este trabalho esperamos contribuir para os estudos dos quadrinhos, da linguagem e da comunicação política, avançando para um novo gênero discursivo estável, além de ampliar as possibilidades de análises e contemplação desses produtos a partir das categorias estéticas que tão bem contemplam as experiências sensíveis diante da arte, da publicidade, do jornalismo, entre tantas outras produções humanas”.

Mais do que um estudo sobre quadrinhos, a tese de Tássia Aguiar de Souza reafirma o poder do humor como uma forma de resistência simbólica uma linguagem que ri do trágico para transformar o absurdo em crítica.

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