Pesquisadora faz alerta para os riscos do uso precoce de telas na infância e cobra mediação consciente nas creches públicas

Ilustração de criança entre brinquedos tradicionais e dispositivos digitais representando o impacto das telas na infância.

Ilustração criada para representar o impacto do uso precoce de dispositivos digitais na infância e o debate sobre seus efeitos no desenvolvimento infantil.

Estudo mostra que a exposição digital em crianças de zero a três anos pode afetar o desenvolvimento infantil e defende uma formação docente mais crítica e humanizada.

Brincar, explorar e interagir são partes essenciais da infância. No entanto, nas creches públicas brasileiras, esses momentos vêm sendo cada vez mais substituídos por telas digitais. Essa transformação, intensificada durante a pandemia, é o foco da tese “Criança, a tela digital e o brincar: narrativas de uma coordenadora pedagógica sobre o uso de tecnologias digitais da informação e comunicação na primeira infância”, que investiga como o uso precoce das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) pode alterar o cotidiano e o processo de desenvolvimento de crianças de zero a três anos.

Desenvolvida por uma coordenadora pedagógica da rede pública, a pesquisa surgiu a partir de observações do próprio ambiente escolar. Ao longo do estudo, de natureza qualitativa e aplicada, a autora utilizou o diário de bordo como principal instrumento de análise, registrando experiências, inquietações e percepções sobre o impacto das telas no comportamento e nas relações das crianças.

Baseada em pensadores como Vygotsky, Leontiev, Kenski e Desmurget, a tese aponta que o uso indiscriminado de dispositivos eletrônicos pode interferir diretamente na construção da aprendizagem e na capacidade de socialização. Segundo a autora, quando utilizada sem mediação adequada, a tecnologia tende a reduzir o espaço do brincar e comprometer o desenvolvimento integral da criança.

“A infância dela está se resumindo à tecnologia. Mas a infância não é só isso”, afirma a pesquisadora, ao refletir sobre o afastamento das experiências sensoriais e das brincadeiras livres, fundamentais para estimular a criatividade e o convívio coletivo.

O estudo também destaca que, durante e após a pandemia, as telas passaram a ocupar um espaço constante nas creches, muitas vezes sem um propósito pedagógico definido. O que deveria funcionar como ferramenta complementar acabou se tornando, em diversos casos, um substituto das interações humanas.

“A tecnologia pode atrapalhar muito a infância da criança. Vejo que, em países mais estruturados, as crianças não utilizam tecnologia até os dois anos de idade. […] A tecnologia é importante, mas não para crianças tão pequenas”, relata.

A pesquisadora identifica ainda um desafio urgente: a falta de formação específica para educadores sobre o uso pedagógico das tecnologias. Para ela, é fundamental que as práticas escolares contem com uma mediação crítica, sensível e responsável, capaz de valorizar o contato humano e respeitar o tempo da infância.

“Como educadora, isso me angustia. Porque sei que infância é tempo de presença, de troca e de construção de vínculos, e não de substituição das interações humanas por telas”, desabafa.

Mais do que uma crítica, o trabalho propõe uma mudança de perspectiva: a tecnologia não precisa ser eliminada, mas integrada de forma consciente ao processo educativo. Para a autora, o grande desafio é garantir que a infância preserve o direito de brincar, imaginar e conviver, mantendo o equilíbrio entre o mundo digital e as experiências humanas.

Texto: Natália Pires Pinto
Matéria produzida a partir da tese de Mônica de Souza.

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