Imagem criada por inteligência artificial representando práticas pedagógicas humanizadas na Educação de Jovens e Adultos, com foco no uso de narrativas autobiográficas.
Pesquisa mostra que narrativas autobiográficas ajudam professores a repensar estratégias, acolher trajetórias e humanizar o ambiente escolar na Educação de Jovens e Adultos.
Ensinar na Educação de Jovens e Adultos (EJA) é, muitas vezes, reencontrar histórias esquecidas. São alunos que retornam à escola depois de longos períodos afastados. Trazem memórias interrompidas, sonhos adiados e desafios que vão além do conteúdo formal. Diante desse contexto, a pesquisadora Alexandra Henriques Ferreira, da Universidade Metodista de São Paulo, decidiu investigar como o conhecimento dessas trajetórias pode influenciar a prática do professor.
A dissertação analisou o trabalho de cinco professores de um Centro Público de Ensino Profissionalizante, em Santo André (SP), que passaram a utilizar cartas autobiográficas como ferramenta pedagógica. Ao escreverem suas histórias de vida, os alunos permitiram que os educadores enxergassem muito além do caderno e da chamada. Essa mudança de perspectiva transformou a maneira de ensinar.
Segundo Alexandra, o uso das narrativas abriu espaço para novas reflexões sobre o papel de cada docente. Em seu resumo, ela afirma que o estudo possibilitou “uma visão mais atenta tanto ao educador como indivíduo, quanto à sua formação pessoal e profissional, contribuindo com a reflexão dos professores na elaboração de planejamentos e aulas a partir das cartas autobiográficas”.
Esse movimento, segundo a autora, criou um ambiente mais humano, no qual ensinar e aprender passaram a se conectar diretamente às vivências reais dos estudantes.
A metodologia adotada foi qualitativa e exploratória, baseada na pesquisa narrativa. Além de entrevistar os professores, Alexandra registrou diálogos em um diário de bordo e analisou as cartas pedagógicas escritas pelos docentes textos em que refletiam sobre suas práticas, dúvidas e memórias escolares.
Esse processo ajudou a compreender que a docência também é marcada por experiências pessoais. Como afirma a pesquisadora:
“Acredito que a nossa prática pedagógica como professores está intrinsecamente ligada às nossas histórias de vida e experiências escolares, mesmo antes de ingressarmos na docência”.
Os resultados revelam que conhecer as histórias de vida dos alunos promoveu mudanças concretas em sala de aula. Os professores passaram a reorganizar planejamentos, repensar estratégias e acolher mais profundamente as dificuldades dos estudantes muitas delas marcadas por traumas, interrupções escolares ou experiências negativas anteriores.
A prática da escrita e o exercício da produção de narrativas ensejam aos alunos um novo sentido sobre seu passado, além de estimular autonomia e pensamento crítico. Para os educadores, o processo também contribui para o fortalecimento de sua identidade profissional.
Os dados da pesquisa mostram que, quando acolhida como ferramenta pedagógica, a narrativa se torna muito mais do que uma atividade de escrita. Ela se transforma em um gesto de reconhecimento um convite para que alunos e educadores olhem para si mesmos, para o outro e para aquilo que os une: a vontade de aprender, ensinar e continuar escrevendo novas histórias dentro da escola.
Texto: Natália Pires Pinto
Matéria produzida a partir da Dissertação de Alexandra Henriques Ferreira.

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