Imagem criada por inteligência artificial representando os desafios emocionais e o vínculo afetivo na maternidade de crianças com desenvolvimento atípico.
Pesquisa mostra altos índices de sofrimento mental e desigualdades no acesso ao diagnóstico, mas também destaca a força, o cuidado e os caminhos de superação construídos por mães de crianças atípicas.
Quando uma mulher descobre que será mãe, quase sempre é envolvida por narrativas idealizadas de plenitude, força natural e um instinto que parece dar conta de tudo. Mas, para mães de crianças com desenvolvimento atípico, essas expectativas logo encontram a realidade: uma rotina de consultas, incertezas, cansaço emocional, conflitos internos e, muitas vezes, solidão. É nesse universo complexo que a pesquisadora Cíntia Teixeira de Sousa Viana mergulha em sua dissertação “Maternidade atípica: Fatores de risco, fatores de proteção e enfrentamentos”.
A autora explica que seu objetivo não era apenas observar números, mas entender a vida por trás deles. Por isso, afirma que buscou “investigar na maternidade atípica fatores de risco, fatores de proteção e os enfrentamentos, com vistas a compreender a experiência da maternidade de crianças com desenvolvimento atípico e os mecanismos de superação diante das adversidades relacionadas a essa situação”.
A partir de uma metodologia mista questionários e entrevistas Viana traçou um retrato amplo e delicado dessas mulheres. No levantamento quantitativo, 153 mães contaram como se sentem diante da maternidade. Os resultados escancaram uma realidade dura: 83,7% delas têm risco elevado de desenvolver transtornos mentais, reflexo direto de uma rotina que exige muito mais do que se costuma admitir.
Segundo a autora, essa combinação de métodos foi essencial para “obter uma compreensão mais completa do objeto de pesquisa”. Ela também destaca que o cruzamento entre sofrimento mental e qualidade de vida revelou padrões profundos: mães mais desgastadas emocionalmente são justamente aquelas que têm menos suporte nas dimensões física, psicológica, social e ambiental do dia a dia. “As análises quanti e qualitativas buscaram caracterizar o grupo de participantes e identificar aquelas com menor risco de transtorno mental e melhor qualidade de vida”, afirma a autora.
Mas Viana sabia que números, embora importantes, não dariam conta da experiência humana que vive por trás da maternidade atípica. Por isso, conduziu entrevistas com quatro mães que aceitaram revisitar suas histórias. Elas relataram medo, culpa, exaustão, o impacto da demora no diagnóstico e, principalmente, o peso emocional de não saber como agir enquanto tentavam fazer o melhor pelos filhos. São relatos que mostram a força dessas mulheres, mesmo quando elas mesmas não se enxergam assim.
Para compreender como essas mães encontram fôlego para seguir, a autora recorre à Logoterapia abordagem que busca sentido mesmo em cenários de sofrimento. Em suas palavras: “Ao aplicar a perspectiva da Logoterapia e Análise Existencial Frankliana à maternidade atípica, busca-se não apenas compreender o impacto emocional e psicológico sobre as mães, mas também discutir como essas mulheres encontram sentidos e enfrentam os desafios únicos que surgem em suas vivências”.
Essa construção de sentido aparece de muitas formas nos relatos: na esperança de garantir qualidade de vida aos filhos, na busca por autonomia, na luta por diagnóstico, na criação de estratégias de cuidado e nas pequenas vitórias do cotidiano aquelas que só quem vive sabe o quanto custam e o quanto significam.
Ao final do estudo, Viana reforça que sua pesquisa cumpriu o propósito. “Conclui-se que a pesquisa atingiu seu objetivo ao investigar a experiência da maternidade atípica, destacando os desafios enfrentados”. Mais do que isso, seu trabalho evidencia algo fundamental: essas mães precisam e merecem suporte emocional, social e institucional para que possam viver a maternidade de forma mais justa, digna e acolhida.
Texto: Natália Pires Pinto
Matéria produzida a partir da Dissertação de Cíntia Teixeira de Sousa Viana

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